Ensinamentos Fundamentais do Budismo Ch'an

 

 

Segunda Parte


Histórias Ch'an | Primeira Parte | Segunda Parte | Terceira Parte | Glossário


O Mercador de Óleo

Um dia, quando o Mestre Ch'an Chao-chou estava a caminho para o Distrito T'ung-cheng, ele encontrou o Mestre Ch'an Ta-t'ung de T'ou-tzü Shan e perguntou: "É você que é o Mestre de T'ou-tzü Shan?"

Ta-t'ung acenando com sua mão apregoava: "Sal, chá, e óleo. Por favor comprem!"

Chao-chou ignorando-o, rapidamente continuou seu caminho para o templo. O Mestre Ta-t'ung seguiu atrás e chegou ao templo com uma garrafa de óleo na mão. Chao-chou disse a ele desdenhosamente: "Eu tenho ouvido falar do nome do grande Mestre Ta-t'ung de T'ou-tzü Shan por um longo tempo. Contudo, eu somente vejo um mercador de óleo".

Ta-t'ung contestou: "Eu também tenho ouvido falar que Chao-chou é um mestre Ch'an, mas de fato ele não difere em nada de uma pessoa comum. Você somente vê o mercador de óleo e não vê o verdadeiro T'ou-tzü11".

Chao-chou perguntou: "Por que você diz que eu sou uma pessoa comum? O que é T'ou-tzü?".

O Mestre Ta-t'ung levantou a garrafa de óleo e gritou: "Óleo! Óleo!"

O que é "T'ou-tzü?" perguntou Chao-chou para quem a única resposta foi "Óleo! Óleo!". Arroz, sal, chá e óleo — os alimentos básicos da vida Chinesa — tal é o ensinamento do Mestre T'ou-tzü.

Tempos depois, antes de morrer, o mestre Ta-t'ung disse que voltaria se a stupa11a estivesse vermelha.

Cem anos depois, quando os discípulos consertavam a stupa encontraram sharira11b vermelha.

Nesse tempo, veio morar no templo, o mestre Yi Tching. Todos diziam que ele era a reencarnação do Mestre Ta-t'ung.

O mestre Yi Tching escreveu um poema na stupa:

As nuvens jamais podem ser aprisionadas
Grandes Montanhas Verdes não podem ser cobertas
Nas noites frias a luz do luar circunda a stupa
Na profunda noite de outono ouve-se apenas o sussurro dos pinheiros

Quem é T'ou-tzü?

É um mestre cujo ensinamento é tão próximo de nós como o sal, o arroz, chá e o óleo, indispensáveis à vida cotidiana.

11.  Era uma prática comum entre os mestres Ch'an adotar o nome do lugar de onde eles eram, como as duas primeiras palavras de seu nome. Desde que o Mestre Ta-tung era de Tou-tzü Shan, seu nome tornou-se Tou-tzü Ta-tung, e ele poderia também ser chamado de Tou-tzü ou Ta-tung.

11b. Originalmente as stupas eram monumentos memoriais construídos para guardar restos mortais do Buda histórico e de outros Bodhisattvas. Elas também serviam como lembranças simbólicas de vários eventos importantes na vida do Buda Shakyamuni. A veneração de stupas, nas quais o Buda está "presente", tem sido conhecida desde os primórdios do budismo. Tal veneração é feita por circunvoluções na stupa no mesmo sentido do curso do sol. Todavia isto não quer dizer que as relíquias são veneradas, mas melhor dizendo, a stupa serve de suporte à meditação e como uma lembrança simbólica do estado desperto da mente.

11c. Relíquias do Buda Shakyamuni ou de outro Bodhisattva, comumente veneradas e preservadas em stupas.


Eu não sou Buda

Um erudito foi viver em um templo. Julgando-se brilhante, freqüentemente debatia com o Mestre Ch'an Chao-chou.

Um dia, ele perguntou ao Mestre: "O Buda era muito compassivo. Quando ele estava ajudando os seres sencientes , ele sempre tentava atender aos seus desejos. Qualquer coisa que desejassem , Buda tentaria satisfazê-los. É correto?"

O Mestre Chao-chou exclamou: "Sim!"

O erudito continuou: "Eu desejo muitíssimo ter a bengala que está em sua mão, mas não sei se meu desejo poderia ser atendido".

O Mestre Chao-chou recusou-lhe dizendo: "Um cavalheiro não toma pela força o que eles querem. Você entende?"

O erudito contestou: "Eu não sou cavalheiro".

"Nem eu sou um Buda!" gritou Chao-chou.

Em outra ocasião, quando o erudito estava sentado em meditação, Chao-chou passou por perto. O erudito olhou para o Mestre, mas não lhe deu atenção. Chao-chou o repreendeu dizendo: "Jovem, por que você não se levanta quando vê alguém mais velho?"

Ele replicou: "Sentado é o mesmo que estar em pé!"

O Mestre Chao-chou esbofeteou-o.

Enfurecido, o jovem erudito exigiu uma explicação.

O Mestre Chao-chou disse gentilmente: "Esbofeteá-lo é o mesmo que não esbofeteá-lo".

O jovem era um intelectual, enquanto o Mestre Ch'an era alguém que já tinha realizado a Verdade. Um intelectual não pode ser comparado com alguém que já tenha atingido a realização — especialmente com alguém como Mestre Chao-chou, cujo Ch'an era vivaz, rápido, puro, e meticuloso.

Chao-chou não era tão apegado ao seu cajado que se recusasse a dá-lo. Simplesmente não gostou da maneira como lhe foi pedido pelo erudito.

O ato de Chao-chou esbofetear o erudito e sua observação "esbofeteá-lo é o mesmo que não esbofeteá-lo" deveria servir como uma lição para aqueles que ostentam seu conhecimento Ch'an sem ter realizado a Verdade!


Eu Também Tenho uma Linguagem

Quando o Mestre Ch'an Kuang-hui Yuan-lien começou a estudar o Ch'an, ele foi ao Mestre Ch'an Chen-chueh. Durante o dia ele trabalhava na cozinha, e à noite ele recitava sutras.

Um dia, O Mestre Chen-chueh perguntou-lhe: "Que sutra você está cantando agora?"

Yuan-lien respondeu: "O Sutra Vimalakirti".

Chen-Chueh perguntou: "O Sutra está aqui. Onde está Vimalakirti?"

Yuan-Lien não sabia como responder, assim ele perguntou ao Mestre Chen-chueh: "Onde está Vimalakirti?"

Chen-Chueh exclamou: "Se eu sei ou não, não posso lhe dizer!"

Yuan-lien sentiu-se tão envergonhado que deixou seu Mestre e foi aprender com mais de cinqüenta outros mestres Ch'an. Ainda assim, ele não conseguiu alcançar a realização.

Um dia, ele foi visitar Hsing-nien e perguntou: "Eu estou indo para a montanha do tesouro. O que eu deveria fazer se eu voltasse com as mãos vazias?"

O Mestre Hsing-nien declarou: "Cave o tesouro que está dentro de você!"

Yuan-lien alcançou a realização instantaneamente e disse: "Eu não tenho dúvidas sobre as linguagens dos mestres Ch'an".

Hsing-nien perguntou: "Por que?"

Yuan-lien respondeu: "Eu também tenho uma linguagem".

Hsing-nien estava exultante e disse: "Você já realizou a essência do Ch'an".

Todos têm uma linguagem, mas nem todos sabem a sua maravilhosa função. A língua pode ser usada para falar. Uma palavra pode salvar um país. Uma palavra também pode destruir um país. Isto depende de como você sabe usar a sua língua. Alguns usam-nas para fazer o bem, enquanto outros usam-na para fazer o mal. Será que todos entendem a linguagem de um Mestre Ch'an?


Pensando em Não Pensar

Um dia, enquanto o Mestre Ch'an Wei-yen meditava, um monge que passava por perto olhou para ele e perguntou: "O senhor está sentado aqui imóvel como uma rocha. Em que o senhor esta pensando?"

O Mestre respondeu: "Eu estou pensando em não pensar".

O monge continuou: "Como o senhor faz isto?"

Wei-yen respondeu: "Não pensando"

Na realidade, pensar e não pensar parecem mutuamente contraditórios, ainda que exista uma implicação subentendida. O Ch'an não é meramente um assunto de entendimento de palavras. No ensino do Ch'an, as palavras são consideradas obstáculos para a realização. Apesar disso, através do entendimento delas, a essência que não pode ser verbalmente comunicada pode ser captada. O verdadeiro sabor do Ch'an somente pode ser experimentado quando alguém se desliga do entendimento intelectual.


O Dharma não é Dual

Um erudito Confucionista chamado Han Yu enfureceu o imperador por ter escrito uma censura, admoestando-o a não receber relíquias de Buda. Portanto, ele foi exilado para Chao-chou.

Enquanto estava lá, Han Yu foi visitar o Mestre Ch'an Pao-tung e perguntou: "Mestre, quantos anos o senhor tem?"

O Mestre levantou seu rosário e perguntou: "Você sabe?"

Han Yu respondeu : "Não, eu não sei".

Pao-tung acrescentou: "Dia e noite, 108".

Han Yu não queria que notassem que ele não havia entendido, assim ele foi embora.

No dia seguinte, Han Yu retornou. Encontrando o monge chefe do templo, ele contou-lhe a conversa que ele tivera com o Mestre Pao-tung e perguntou-lhe o que aquilo queria dizer.

Após ouvir o relato, o monge chefe tamborilou nos seus próprios dentes três vezes. Han Yu ficou ainda mais confuso. Ele procurou o Mestre Pao-tung e perguntou-lhe outra vez: "Mestre, quantos anos o senhor tem ?".

O Mestre Pao-tung, também , tamborilou em seus dentes três vezes.

Subitamente, Han Yu pareceu ter entendido e disse: "Ah! O Dharma não é dual ".

O Mestre Pao-tung perguntou: "Por que?".

Han Yu respondeu : "O monge chefe deu a mesma resposta que o senhor ".

O Mestre Pao-tung resmungou para si mesmo e disse: "O ensino do budismo e do Confucionismo não é dual. Você e eu somos o mesmo!"

Han Yu finalmente entendeu e mais tarde tornou-se um budista.

Han Yu inquiriu o Mestre sobre sua idade. Entretanto a idade física não é relevante. O que importa é tornar-se uno com a Natureza. Buda e a mente deveriam tornar-se um. budistas e Confucionistas deveriam chegar a um mútuo entendimento.

Quando o Mestre mostrou seu rosário e disse: "Dia e noite, 108", ele queria dizer que o tempo era limitado, e não havia necessidade dos budistas e Confucionistas discutirem. Os dois deveriam cooperar e trabalhar juntos.


Entendendo e não Entendendo

Após ouvir os pontos de vista do Mestre Ch'an Shou-hsun, o Mestre Ch'an Fo-chien disse: "É uma pena que uma pérola tão brilhante tenha sido apanhada por este maluco". Ele continuou citando o poema do Mestre Ch'an Ling-yun: 'Sempre que vejo um pessegueiro em flor, não tenho dúvidas'. Por que Ling-yun não tinha dúvidas?"

Shou-hsun respondeu imediatamente: "Não diga que ele não tenha dúvidas; mesmo hoje, não conseguimos achar uma dúvida em parte alguma".

Fo-Chien perguntou, "Hsüan-sha disse: 'realmente esta nobre verdade é muito verdadeira, mas eu não posso compreendê-la totalmente!' O que era que ele não podia entender totalmente?"

Polidamente Shou-hsun respondeu: "nós podemos ver que o Mestre Ch'an Hsüan-sha tinha ótimas intenções". Ele continuou recitando o seguinte verso:

Olhando para o céu o dia todo sem levantar a cabeça,
Erguendo os olhos somente quando o pessegueiro floresce;
Mesmo se houver uma rede que cubra o céu,
Quando você atravessar o portão hermeticamente fechado, você
Se sentirá completamente livre.

O Mestre Fo-chien sentiu que o Mestre Shou-hsun estava iluminado, mas o Mestre Yuan-wu não pensava da mesma forma, e queria saber melhor quem era o Mestre Shou-hsun, por isso viajou com ele. Quando eles estavam às margens de um lago, o Mestre Yuan-wu empurrou-o dentro d'água e perguntou: "Antes que Niu-tou Fa-jung encontrasse o Quarto Patriarca, como é que ele era ?"

Shou-hsun respondeu: "Quando o lago é profundo, os peixes se juntam".

Yuan-wu continuou: "O que acontece depois que eles se encontram?"

Shou-hsun respondeu: "As árvores altas aparam o vento".

"O que acontece quando ambos se encontram sem se encontrar?"

Shou-hsun respondeu: "O pé estendido está sobre o pé recolhido".

O Mestre Yuan-wu estava muito impressionado pelas respostas de Shou-hsun e ficou convencido de que Shou-hsun estava verdadeiramente iluminado.

A realização de um praticante Ch'an pode ser testada. Shou-hsun foi repetidamente testado; somente então foi reconhecido como um mestre Ch'an iluminado.


Não Autorizado a ser Mestre

O Mestre Ch'an Tou-shuai Ts'ung-yüeh tinha grande respeito pelo Mestre Ch'an Ch'ing-su.

Certa vez, Ts'ung-yüeh levava algumas líchias enquanto passava pela janela de Ch'ing-su. Ele parou e disse educadamente: "Mestre, estas frutas são de Kiangsi, minha cidade natal. Pegue algumas".

Ch'ing-su alegremente aceitou, dizendo: "Eu nunca mais comi líchias desde que meu mestre morreu"

Ts'ung-yüeh perguntou: "Quem foi seu mestre?"

"O Mestre Tzu-ming. Eu fui seu subordinado por treze anos".

Ts'ung-yüeh ficou surpreso em ouvir isto e exclamou: "Após ter sido seu assessor por treze anos, o senhor deve ter herdado seus conhecimentos".

Ele então ofereceu todas suas líchias ao Mestre Ch'ing-su.

Ch'ing-su disse com gratidão: "Como não acumulei mérito suficiente, meu mestre instruiu-me a não transmitir o que eu tinha aprendido com ele. Agora vejo que você é muito sincero e pela amizade que fizemos por causa dessas líchias, farei uma exceção. Conte-me o que você realizou".

Ts'ung-yüeh contou então a Ch'ing-su quem o instruiu: "Tanto o Buda como o demônio existem neste mundo. No momento da liberação devemos entrar no caminho de Buda e não no caminho do demônio".

Após confirmar a realização de Ts'ung-yüeh, o Mestre Ch'ing-su avisou-o: "Hoje eu confirmei sua realização para que você possa alcançar a verdadeira liberação. Contudo, você não deveria contar às pessoas que você herdou meus ensinamentos. O Mestre Chen-ching Ke-wen é seu professor".

Para aprender o Dharma, primeiro temos que criar as condições certas. Até líchias pode contribuir para a nossa iluminação. "O Dharma somente pode ser procurado através do respeito". O respeito de Ts' ung-yüeh pelos mais idosos contribuiu para sua realização.

Gratidão também era uma virtude dos antigos. Por causa da gratidão pela oferta de umas poucas líchias, o Mestre Ch'ing-su confirmou a realização de Ts'ung-yüeh.

O conselho dado a Ts'ung-yüeh pelo mestre Ch'ing-su de que ele considerasse o Mestre Chen-ching Ke-wen como seu professor demonstrava o respeito e a confiança que os mestres Ch'an têm um pelo outro.


A Vaca de Ferro Saltou sobre Hsin-lo

Após ler The Record of Tung-shan, o assistente do Mestre Ch'an Fa-ch'ing estava profundamente emocionado e disse: "É realmente estranho como os antigos consideravam o nascimento e a morte".

O Mestre Fa-ch'ing respondeu: "Quando eu morrer, lembre-se de chamar meu nome. Se eu voltar à vida, isto significa que fui liberado do nascimento e da morte. Não há nada de estranho nisto". O Mestre então escreveu um verso:

No quinto dia do quinto mês,
Os quatro grandes elementos devem deixar seu possuidor.
Meus ossos brancos serão levados pelo vento,
Nenhuma terra do benfeitor será desperdiçada.

No quinto dia do quinto mês do calendário lunar, o Mestre Fa-ch'ing deu todas as suas roupas e pertences para que seu assistente distribuísse entre os outros monges. À meia noite, o Mestre sentou-se com as pernas cruzadas; o batimento de seu coração e sua respiração pararam. Lembrando as instruções do Mestre, o assistente gritou: "Mestre! Mestre!"

Finalmente, o Mestre Fa-ch'ing abriu os olhos e perguntou: "O que?"

"Mestre, por que o senhor não vestiu suas roupas antes de partir?"

Fa-ch'ing disse: "Quando vim pela primeira vez, eu não trouxe nada!"

O assistente teimou em ajudar o Mestre a colocar suas roupas.

"Não se pode deixar nem um pedacinho para a posteridade."

O assistente perguntou: "O que o senhor pretende fazer a este respeito?"

Fa-ch'ing disse: "Não se preocupe" e cantou:

Setenta e três anos passaram-se como um raio,
Antes de partir, eu deixo a você uma última mensagem.
Quando a vaca de ferro saltou sobre Hsin-lo12,
O espaço vazio foi partido em sete ou oito pedaços.

Em seguida, ele morreu.

Os mestres Ch'an estão sujeitos ao nascimento e à morte; contudo, eles se sentem à vontade quando se deparam com qualquer um deles. Com mãos vazias, eles vieram ao mundo e com mãos vazias eles deverão deixá-lo. Esta é a verdadeira liberação.

12.  Hsin-lo foi um dos três reinos da antiga Coréia.


O General se Arrepende

Um dia, o Mestre Ch'an Meng-ch'uang decidiu tomar uma barca para atravessar o rio. Depois que ela deixou a margem, um general levando uma espada e um chicote, chegou de repente gritando: "Espere-me, também vou!"

Quase todos na barca concordaram que ela não deveria voltar, assim o barqueiro gritou: "Espere pela próxima barca!"

Então, o Mestre Meng-ch'uang disse para o barqueiro: "Ainda estamos muito próximo da praia. Volte e o apanhe".

Vendo que era um monge que falava, o barqueiro voltou e apanhou o general. Quando o general subiu no barco, ele ficou perto do Mestre Meng-ch'uang e deu-lhe uma chicotada, gritando: "Levante-se, dê-me seu lugar".

Logo, o sangue começou pingar da cabeça do Mestre. Ele levantou–se sem dizer uma palavra. Todos estavam com medo e não ousaram falar. Embora soubesse que estava errado, o general era muito arrogante para se desculpar.

Quando a barca chegou do outro lado, o Mestre Meng-ch'uang desceu e foi para a beira do rio lavar o sangue de seu rosto.

O general sentiu grande remorso pelo que havia feito. Ele aproximou-se do Mestre Meng-ch'uang, ajoelhou-se diante dele e disse: "Mestre, estou muito arrependido!"

O Mestre Meng-ch'uang disse gentilmente: "Não se preocupe. Pessoas viajando longe de casa, algumas vezes se sentem melancólicas".

Qual é a coisa mais potente na Terra? Tolerância. O Buda certa vez disse: "Um praticante budista que pode tolerar a calúnia, o abuso, o ridículo, e encara-os como doce orvalho é uma pessoa forte".

Violência pode inspirar medo nas pessoas mas não pode conquistar seu respeito. Somente a tolerância pode tocar os corações dos arrogantes.


Tudo está à mão!

Um dia, quando viajava, o Mestre Ch'an Fa-yen Wen-i ficou impedido de continuar a viagem por uma tempestade de neve e teve que ficar com o Mestre Ch'an Kuei-ch'en.

Passado alguns dias, a tempestade de neve parou, assim Fa-yen decidiu partir e continuar sua jornada.

Enquanto o Mestre Kuei-ch'en estava andando até o portão principal, ele apontou para uma grande rocha à margem da estrada e disse: "Você sempre tem dito: 'Os três mundos não são nada mais que a manifestação da mente e os dez mil Dharmas surgem da consciência'. A rocha está dentro ou fora de sua mente?"

Com espontaneidade, Fa-yen respondeu: "De acordo com os ensinamentos do Yogachara, não existem Dharmas fora da mente. Com certeza, a rocha deve estar dentro da mente".

O Mestre Kuei-ch'en aproveitou a oportunidade e perguntou: "Você não está viajando? Então por que você carrega um pedaço de rocha em sua mente?"

Fa-yen não sabia como responder, assim ele decidiu ficar para procurar a resposta a esta pergunta. Ele trabalhou na questão durante dias e deu diferentes respostas ao Mestre Kuei-ch'en. Qualquer ponto de vista que ele usasse para abordar a questão, o Mestre Kuei-chen sempre discordava e declarava: "Budismo não é isto!"

Finalmente, Fa-yen suspirou: "Esgotei as palavras e as idéias".

O Mestre Kuei-ch'en exclamou: "Se estamos falando sobre budismo, então tudo está à mão!"

O Mestre Fa-yen alcançou a realização naquele instante. Mais tarde, ele fundou na China, a Escola Fa-yen de budismo Ch'an.

Por chifres em cavalo ou uma cabeça extra a uma cabeça, é desnecessário. "Se estamos falando sobre budismo, então tudo está à mão" Que belo e maravilhoso estado da mente! Os fardos que carregamos em nossas mentes não são apenas pedaços de rocha. Os fardos do dinheiro, da fama, do amor e da vida são tão pesados que dificilmente podemos respirar. Quando a isto são acrescentados o certo e o errado, a honra e a desonra, o sofrimento e a felicidade, os fardos tornam-se ainda mais insuportáveis. Se entendermos que: "Tudo já está à mão" então porque deveríamos nos preocupar se as coisas são criadas somente por nossas mentes ou por nossa consciência?


A Vida ou a Morte, que Aconteça!

Antes que o Mestre Ch'an Pao-fu morresse ele disse aos seus discípulos: "Ultimamente eu tenho me sentido fraco. Acho que está quase chegando o tempo para eu partir".

Após ouvirem isto, alguns dos seus discípulos disseram: "Mestre, o senhor ainda parece muito saudável".

Outros imploraram, "Mestre, nós ainda necessitamos de sua orientação". enquanto alguns insistiram: " Mestre, por favor fique por amor a todos os seres".

Um discípulo perguntou: "Mestre, quando chegar o seu momento de partir, o senhor irá ou ficará?"

O Mestre Pao-fu perguntou: "O que você acha que seria melhor?"

O discípulo respondeu sem hesitar: "Se é a vida ou a morte, que aconteça!"

O Mestre começou a rir: "Quando você roubou as palavras que eu ia usar?"

Depois disso, Pao-fu morreu.

Para uma pessoa comum, a vida implica em felicidade, enquanto a morte é lamentável. Para um praticante budista realizado, a vida não implica em ser feliz, nem a morte é causa de lamento. A vida e a morte são dois lados de uma mesma moeda. O ciclo da vida e da morte é parte da lei da Natureza.

Muitos praticantes Ch'an disseram que a vida e a morte não tem nada a ver com eles. Um praticante Ch'an nem é ávido pela vida, nem temeroso com a morte, mas olha tanto a vida quanto a morte com uma atitude liberada.


O Silêncio é Melhor que a Fala

Durante a quinta dinastia (907-950 d.C.), o Rei Liu de Hou Han insistiu em convidar o Mestre Ch'an Yün-men e todos os monges do seu templo para passar o retiro de verão no palácio.

Palestras eram feitas diariamente. As damas e os ministros da corte estavam muito ansiosos para ouvir os ensinamentos e também por fazer perguntas. Todos estavam alegremente envolvidos nessa troca festiva de budismo exceto o Mestre Yün-men, que meditava tranqüilamente. Ninguém ousava perturbá-lo.

Um oficial viu Yün-men e fez-lhe algumas perguntas. Yün-men respondeu-lhe com silêncio. O oficial não se sentiu ofendido, mas respeitou Yün-men ainda mais. Ele escreveu o seguinte poema e afixou-o:

Praticar com grande sabedoria é o verdadeiro Ch'an,
Em que o silêncio é melhor que a fala.
Uma conversa inteligente sobre a verdade é inferior ao silêncio do Ch'an.

Os mestres Ch'an são como nuvens flutuantes e grous selvagens. Algumas vezes vivem nas florestas, outras junto d' água. Levando somente seus três mantos13 e uma tigela, eles vivem de acordo com o ambiente que os cerca, afastados da riqueza, do ganho ou do poder.

O silêncio do Mestre Yün-men era como o som do trovão. Se pudermos entender os ensinamentos de Buda através do silêncio, então teremos obtido um vislumbre do Ch'an.

13.  Individualmente, monges e monjas restrigem-se à posse de três mantos, de acordo com as regras da Sangha. Quando o budismo foi introduzido em diversos países, certas modificações foram introduzidas nestas regras devido a diferenças climáticas e das condições culturais.


O Monge Chefe

Por vinte anos esteve vago, no Templo Ling-shu, o posto de monge chefe. Quando perguntavam ao Mestre Ch'an Ling-shu Ju-min sobre o posto, ele respondia: "Nosso monge chefe acabou de nascer".

Em outra ocasião, quando alguém perguntava a mesma coisa, Ling-shu respondia: " Nosso monge chefe está cuidando de sua vaca".

Ainda mais tarde, quando as pessoas inquiriam sobre o monge chefe, Ling-shu respondia: "Nosso monge chefe está viajando para se cultivar".

Ninguém, realmente entendia o que o Mestre queria dizer.

Um dia, o Mestre ordenou aos discípulos para tocar o tambor, o sino e instruiu que todos fossem ao portão principal para dar as boas-vindas ao monge chefe. Todos ficaram pasmos. Quando Yün-men chegou, o Mestre Ju-min pediu-lhe para assumir o posto de monge chefe.

Deste momento em diante as pessoas começam a acreditar que o Mestre Ling-shu tinha o poder de conhecer o passado, bem como o futuro.

Pouco tempo depois, o Rei Liu de Hou Han estava para empreender uma campanha militar. Tendo ouvido falar do poder do Mestre Ling-shu para prever o futuro, o Rei Liu foi pedir-lhe conselho.

O Mestre Ling-shu já sabia da intenção do Rei e morreu antes que ele chegasse. O Rei Liu ficou furioso e exigiu que lhe dissessem: "O que ocorreu para que o Mestre morresse tão depressa?"

O assistente respondeu candidamente: "O Mestre sabia que você estava vindo, assim ele decidiu morrer antes que você chegasse. Ele deixou-lhe uma caixa".

O Rei Liu abriu a caixa e achou dentro, um pedaço de papel no qual estava escrito: "Os olhos dos humanos e dos seres celestiais estão contidos na cabeça do monge chefe no salão de estudos". O Rei Liu entendeu as implicações subjacentes da mensagem. Ele cancelou os planos de guerra e convidou o Mestre Yün-men para tornar-se o Abade do Templo Ling-shu.

Os antigos raramente permitiam que uma pessoa não qualificada preenchesse uma posição, preferindo deixá-la vaga até que a pessoa certa aparecesse. Embora uma pessoa possa ter as qualificações e a virtudes necessárias, ele ou ela deve esperar pelo aparecimento das condições certas.

O Mestre Ling-shu Ju-min esperou vinte anos pelo monge chefe apropriado. Portanto, podemos ver quão cuidadoso ele era em escolher a pessoa certa para uma posição tão importante.


Implorando para Ajudar Outros

Um dia, enquanto o Mestre Ch'an Chao-yin estava viajando, alguém aproximou-se dele e perguntou: "O que eu deveria fazer com meu mau temperamento?"

O Mestre respondeu: "O mau temperamento surge da raiva. Humildemente imploro-lhe que você me dê seu mau temperamento e sua raiva".

Em uma outra ocasião, o Mestre Chao-yin descobriu que o filho de um de seus devotos era muito preguiçoso e gostava de dormir. Seus pais não sabiam como o ajudar. Ao saber disto, o Mestre Chao-yin foi à casa do devoto, acordou o filho, e disse-lhe: "Eu vim pedir-lhe sua preguiça. Dê-me sua preguiça".

Outra vez ainda, quando o Mestre Chao-yin ouviu que um casal, que era seu devoto, estava brigando, o mestre foi pedir-lhe a sua desavença. Do mesmo modo, quando um devoto estava se excedendo no álcool, o Mestre Chao-yin foi pedir-lhe seu alcoolismo.

No decorrer de toda sua vida, o Mestre Chao-yin ajudou muitas pessoas a vencer seus maus hábitos assumindo ele próprio as fraquezas dos outros.


Um Par de Mãos Puras

O Primeiro Ministro P'ei-hsiu da dinastia T'ang era um praticante Ch'an. Ele registrou suas introspecções advindas da prática da meditação e presenteou-as ao Mestre Ch'an Huang-po.

O Mestre colocou as anotações sobre a mesa sem olhá-las. Depois de um longo tempo, ele perguntou a P'ei-hsiu: "Você entendeu o que eu fiz?"

P'ei-hsiu respondeu francamente: "Não, eu não entendi".

O Mestre Huang-po disse: "O ensino do Ch'an não depende só de palavras e escritos. Escrevendo, você realmente destruiu o verdadeiro significado do budismo que é a chave do ensino do Ch'an. Portanto, eu me recuso a vê-las".

As palavras dele deram a P'ei-hsiu uma profunda compreensão do Ch'an, e seu respeito pelo Mestre cresceu. Ele compôs um verso em louvor ao Mestre:

Desde que o Mestre herdou a Mente-intuitiva14,
Há uma pérola na fronte de seu corpo de sete pés.
Ele permaneceu em Shu durante dez anos antes de vir para este lado do rio Chang.
Oito mil discípulos seguiram-no nesses passos exaltados;
Boas causas agruparam-se como fragrantes flores ao longe.
Eu estava indo para me tornar discípulo do Mestre,
Desconhecendo a quem o Mestre revelaria seu ensinamento.
O Mestre Huang-Po não teceu elogios nem condenou o verso, mas meramente comentou:
A mente é como um mar ilimitado:
Lótus vermelhos cuspidos pela boca podem nutrir o corpo doente.
Um par de mãos puras produz naturalmente o que uma pessoa comum nunca produzirá.

Quando o Mestre Huang-po estava com sessenta e cinco anos, P'ei-hsiu coletou os ensinamentos do Mestre em um volume, e mais tarde coletou em um segundo volume. O Mestre Huang-po não leu nenhum deles, demonstrando que ele era fiel ao ensinamento do Ch'an, evitando depender da palavra escrita.

14.  A mente selada refere-se a uma impressão mental ou certeza intuitiva; a mente é a Mente Búdica possuída por todos, que pode lacrar ou assegurar a Verdade. Assim, o termo indica o método intuitivo da Escola Ch'an, evitando a palavra falada ou escrita. Quando os Mestres Ch'an conferem a mente selada sobre um estudante, eles estão com efeito, validando a experiência de iluminação do discípulo.


Como Você Pode Entender?

Depois que o Mestre Ch'an Yün-men alcançou a realização sob a orientação do Mestre Ch'an Mu-chou, ele começou a viajar.

Quando estava em Kiangchou, o Mestre Yün-men encontrou um oficial chamado Chen-ts'ao, que também praticava Ch'an.

Chen-ts'ao perguntou a Yün-men: "Qual é o dever de um monge itinerante?"

Yün-men replicou indiretamente, perguntando: "A quantas pessoas você tem feito esta mesma pergunta antes de perguntar-me?"

O oficial disse: "Não importa a quantas pessoas eu tenha perguntado. Neste momento eu estou lhe perguntando".

Yün-men inqueriu: "Discutiremos isto mais tarde. Deixe-me primeiro perguntar-lhe, quais são os ensinamentos do Tathagata?"

O oficial respondeu: " Os rolos amarelados de pergaminho".

Yün-men retrucou: "Eles somente são tinta no papel e não a essência do ensinamento do Buda. Tente novamente. Qual é o ensinamento?"

O oficial replicou: "Está na ponta da minha língua, mas no momento me faltam as palavras. Minha mente deseja racionalizar, mas meu pensamento se foi".

Yün-men disse: "Querendo dizer, mas não achando palavras apropriadas, implica no uso da linguagem. A mente que deseja raciocinar, mas que não encontra pensamento, implica em pensamento ilusório. Você ainda não disse o que é certo. Tente novamente. Qual é o ensinamento?"

O oficial não podia chegar a uma resposta.

Yün-men questionou: "Eu ouvi dizer que você está estudando o Sutra Lótus?"

O oficial afirmou dizendo: "Sim".

Yüan-men continuou: "De acordo com o Sutra Lótus, 'Toda subsistência e posse está de acordo com os fenômenos reais.' Por favor diga-me quantas pessoas foram ao céu onde não existe pensamento e não-pensamento?"

O oficial estava novamente sem palavras.

Yün-men observou: "Mesmo lendo os dez sutras e os cinco shastras e ainda fazendo práticas em monastérios por dez ou vinte anos, isto não garante que alcancemos iluminação. O que faz você pensar que você pode entender os ensinamentos do Buda lendo apenas uns poucos sutras?"

O oficial disse: "Por favor, perdoe-me".

Depois deste encontro, o Mestre Yün-men foi convidado para ficar na residência do oficial por três anos.

Os praticantes Ch'an não ostentam suas conquistas, gabando-se. Quando Yün-men esteve pela primeira vez em Mu-chou, ele sofreu duros golpes e foi expulso do templo por três vezes. Assim ele alcançou a realização depois de trabalho muito mais árduo. Deste modo, a leitura de uns poucos sutras pelo oficial, não era nada comparada com o que Yün-men tinha sofrido.


A Maravilha do Picar e do Bicar

O Mestre Ch'an Nan-yüan Hui-yung era discípulo do Mestre Ch'an Lin-chi.

Certa vez, Hui-yung ao ensinar seus estudantes disse: "Hoje em dia a maior parte das pessoas apenas conhece teoricamente a relação entre o picar e o bicar15, mas elas não experimentaram ainda a maravilha dessa prática".

Então um noviço adiantou-se e perguntou: "O que é a relação simultânea entre o picar e o bicar?"

O Mestre Hui-yung explicou: "Picar e bicar é como friccionar duas pedras para obter uma faísca. Ela acontece, instantaneamente, sem qualquer deliberação, hesitação ou demora".

O noviço insatisfeito disse: "Ainda tenho minhas dúvidas".

O Mestre Hui-yung amavelmente perguntou: "Que dúvidas você tem?"

O noviço disse sarcasticamente: "Antes eu não tinha nenhuma dúvida, mas o que você acabou de dizer, me confundiu".

O Mestre Hui-Yung bateu no noviço com seu cajado e expulsou-o do templo antes que ele tivesse chance de se explicar.

Este noviço foi estudar com o Mestre Yün-men e contou a um de seus discípulos como ele tinha sido expulso pelo Mestre Hui-yung.

O discípulo inquiriu: "Quando o Mestre Hui-Yung lhe bateu, o cajado quebrou?"

Depois de ouvir isto, o noviço alcançou a realização e decidiu voltar ao Mestre Hui-yung e pedir-lhe perdão. Infelizmente, o Mestre Hui-yung já havia morrido, e o Mestre Feng-hsüeh Yen-chao era o Abade.

O Mestre Yen-chao perguntou ao noviço: "O que fez você discordar do Mestre?"

O noviço replicou: "Eu me senti como se estivesse andando como uma luz tremulante. O Mestre Yen-chao disse: "Bem, agora que você entendeu, eu confirmarei sua realização".

De acordo com o ditado Chinês: "Se o arroz não estiver cozido, não remova a tampa. Se o ovo não estiver chocado, não o quebre".

A maravilha do picar e do bicar é aquilo que deve ocorrer espontaneamente, no momento favorável, assim uma nova vida nascerá.

Quando o Mestre Hui-yung bateu no noviço e o expulsou do templo, o momento favorável ainda estava no período de incubação. O discípulo do Mestre Yün-men tinha bicado a casca no momento certo quando ele fez a pergunta: "O cajado quebrou?"

15. "Picar e bicar" descreve o processo pedagógico que transpira entre os praticantes Ch'an e seus mestres. Os termos são derivados da experiência de um pintinho quebrando a casca. Picar é o som feito pelo pintinho dentro da casca, indicando que ele está pronto para rachá-la. Em resposta a esta ação, a mamãe galinha bica a casca do lado de fora. Desta maneira, o ovo é rachado através do mútuo esforço do pintinho e da galinha, assim como a realização resulta do mútuo esforço do estudante e do mestre. Picar refere-se às questões colocadas pelo praticante Ch'an como um pedido por instruções ao mestre, enquanto bicar denota o ensinamento do mestre Ch'an em resposta ao que foi perguntado, facilitando a realização do estudante.


Histórias Ch'an | Primeira Parte | Segunda Parte | Terceira Parte | Glossário

Home