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Ensinamentos Fundamentais do Budismo Ch'an |
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Segunda Parte Histórias Ch'an | Primeira Parte | Segunda Parte | Terceira Parte | Glossário O Mercador de Óleo Um dia, quando o Mestre Ch'an Chao-chou estava a caminho para o Distrito T'ung-cheng, ele encontrou o Mestre Ch'an Ta-t'ung de T'ou-tzü Shan e perguntou: "É você que é o Mestre de T'ou-tzü Shan?" Ta-t'ung acenando com sua mão apregoava: "Sal, chá, e óleo. Por favor comprem!" Chao-chou ignorando-o, rapidamente continuou seu caminho para o templo. O Mestre Ta-t'ung seguiu atrás e chegou ao templo com uma garrafa de óleo na mão. Chao-chou disse a ele desdenhosamente: "Eu tenho ouvido falar do nome do grande Mestre Ta-t'ung de T'ou-tzü Shan por um longo tempo. Contudo, eu somente vejo um mercador de óleo". Ta-t'ung contestou: "Eu também tenho ouvido falar que Chao-chou é um mestre Ch'an, mas de fato ele não difere em nada de uma pessoa comum. Você somente vê o mercador de óleo e não vê o verdadeiro T'ou-tzü11". Chao-chou perguntou: "Por que você diz que eu sou uma pessoa comum? O que é T'ou-tzü?". O Mestre Ta-t'ung levantou a garrafa de óleo e gritou: "Óleo! Óleo!"
11. Era uma prática comum entre os mestres Ch'an adotar o nome do lugar de onde eles eram, como as duas primeiras palavras de seu nome. Desde que o Mestre Ta-tung era de Tou-tzü Shan, seu nome tornou-se Tou-tzü Ta-tung, e ele poderia também ser chamado de Tou-tzü ou Ta-tung. 11b. Originalmente as stupas eram monumentos memoriais construídos para guardar restos mortais do Buda histórico e de outros Bodhisattvas. Elas também serviam como lembranças simbólicas de vários eventos importantes na vida do Buda Shakyamuni. A veneração de stupas, nas quais o Buda está "presente", tem sido conhecida desde os primórdios do budismo. Tal veneração é feita por circunvoluções na stupa no mesmo sentido do curso do sol. Todavia isto não quer dizer que as relíquias são veneradas, mas melhor dizendo, a stupa serve de suporte à meditação e como uma lembrança simbólica do estado desperto da mente. 11c. Relíquias do Buda Shakyamuni ou de outro Bodhisattva, comumente veneradas e preservadas em stupas. Eu não sou Buda
Um dia, ele perguntou ao Mestre: "O Buda era muito compassivo. Quando ele estava ajudando os seres sencientes , ele sempre tentava atender aos seus desejos. Qualquer coisa que desejassem , Buda tentaria satisfazê-los. É correto?" O Mestre Chao-chou exclamou: "Sim!" O erudito continuou: "Eu desejo muitíssimo ter a bengala que está em sua mão, mas não sei se meu desejo poderia ser atendido". O Mestre Chao-chou recusou-lhe dizendo: "Um cavalheiro não toma pela força o que eles querem. Você entende?" O erudito contestou: "Eu não sou cavalheiro". "Nem eu sou um Buda!" gritou Chao-chou. Em outra ocasião, quando o erudito estava sentado em meditação, Chao-chou passou por perto. O erudito olhou para o Mestre, mas não lhe deu atenção. Chao-chou o repreendeu dizendo: "Jovem, por que você não se levanta quando vê alguém mais velho?" Ele replicou: "Sentado é o mesmo que estar em pé!" O Mestre Chao-chou esbofeteou-o. Enfurecido, o jovem erudito exigiu uma explicação. O Mestre Chao-chou disse gentilmente: "Esbofeteá-lo é o mesmo que não esbofeteá-lo".
Eu Também Tenho uma Linguagem Quando o Mestre Ch'an Kuang-hui Yuan-lien começou a estudar o Ch'an, ele foi ao Mestre Ch'an Chen-chueh. Durante o dia ele trabalhava na cozinha, e à noite ele recitava sutras. Um dia, O Mestre Chen-chueh perguntou-lhe: "Que sutra você está cantando agora?" Yuan-lien respondeu: "O Sutra Vimalakirti". Chen-Chueh perguntou: "O Sutra está aqui. Onde está Vimalakirti?" Yuan-Lien não sabia como responder, assim ele perguntou ao Mestre Chen-chueh: "Onde está Vimalakirti?" Chen-Chueh exclamou: "Se eu sei ou não, não posso lhe dizer!" Yuan-lien sentiu-se tão envergonhado que deixou seu Mestre e foi aprender com mais de cinqüenta outros mestres Ch'an. Ainda assim, ele não conseguiu alcançar a realização. Um dia, ele foi visitar Hsing-nien e perguntou: "Eu estou indo para a montanha do tesouro. O que eu deveria fazer se eu voltasse com as mãos vazias?" O Mestre Hsing-nien declarou: "Cave o tesouro que está dentro de você!" Yuan-lien alcançou a realização instantaneamente e disse: "Eu não tenho dúvidas sobre as linguagens dos mestres Ch'an". Hsing-nien perguntou: "Por que?" Yuan-lien respondeu: "Eu também tenho uma linguagem". Hsing-nien estava exultante e disse: "Você já realizou a essência do Ch'an".
Pensando em Não Pensar Um dia, enquanto o Mestre Ch'an Wei-yen meditava, um monge que passava por perto olhou para ele e perguntou: "O senhor está sentado aqui imóvel como uma rocha. Em que o senhor esta pensando?" O Mestre respondeu: "Eu estou pensando em não pensar". O monge continuou: "Como o senhor faz isto?" Wei-yen respondeu: "Não pensando"
O Dharma não é Dual Um erudito Confucionista chamado Han Yu enfureceu o imperador por ter escrito uma censura, admoestando-o a não receber relíquias de Buda. Portanto, ele foi exilado para Chao-chou. Enquanto estava lá, Han Yu foi visitar o Mestre Ch'an Pao-tung e perguntou: "Mestre, quantos anos o senhor tem?" O Mestre levantou seu rosário e perguntou: "Você sabe?" Han Yu respondeu : "Não, eu não sei". Pao-tung acrescentou: "Dia e noite, 108". Han Yu não queria que notassem que ele não havia entendido, assim ele foi embora. No dia seguinte, Han Yu retornou. Encontrando o monge chefe do templo, ele contou-lhe a conversa que ele tivera com o Mestre Pao-tung e perguntou-lhe o que aquilo queria dizer. Após ouvir o relato, o monge chefe tamborilou nos seus próprios dentes três vezes. Han Yu ficou ainda mais confuso. Ele procurou o Mestre Pao-tung e perguntou-lhe outra vez: "Mestre, quantos anos o senhor tem ?". O Mestre Pao-tung, também , tamborilou em seus dentes três vezes. Subitamente, Han Yu pareceu ter entendido e disse: "Ah! O Dharma não é dual ". O Mestre Pao-tung perguntou: "Por que?". Han Yu respondeu : "O monge chefe deu a mesma resposta que o senhor ". O Mestre Pao-tung resmungou para si mesmo e disse: "O ensino do budismo e do Confucionismo não é dual. Você e eu somos o mesmo!" Han Yu finalmente entendeu e mais tarde tornou-se um budista.
Entendendo e não Entendendo
Shou-hsun respondeu imediatamente: "Não diga que ele não tenha dúvidas; mesmo hoje, não conseguimos achar uma dúvida em parte alguma". Fo-Chien perguntou, "Hsüan-sha disse: 'realmente esta nobre verdade é muito verdadeira, mas eu não posso compreendê-la totalmente!' O que era que ele não podia entender totalmente?" Polidamente Shou-hsun respondeu: "nós podemos ver que o Mestre Ch'an Hsüan-sha tinha ótimas intenções". Ele continuou recitando o seguinte verso:
O Mestre Fo-chien sentiu que o Mestre Shou-hsun estava iluminado, mas o Mestre Yuan-wu não pensava da mesma forma, e queria saber melhor quem era o Mestre Shou-hsun, por isso viajou com ele. Quando eles estavam às margens de um lago, o Mestre Yuan-wu empurrou-o dentro d'água e perguntou: "Antes que Niu-tou Fa-jung encontrasse o Quarto Patriarca, como é que ele era ?" Shou-hsun respondeu: "Quando o lago é profundo, os peixes se juntam". Yuan-wu continuou: "O que acontece depois que eles se encontram?" Shou-hsun respondeu: "As árvores altas aparam o vento". "O que acontece quando ambos se encontram sem se encontrar?" Shou-hsun respondeu: "O pé estendido está sobre o pé recolhido". O Mestre Yuan-wu estava muito impressionado pelas respostas de Shou-hsun e ficou convencido de que Shou-hsun estava verdadeiramente iluminado.
Não Autorizado a ser Mestre O Mestre Ch'an Tou-shuai Ts'ung-yüeh tinha grande respeito pelo Mestre Ch'an Ch'ing-su. Certa vez, Ts'ung-yüeh levava algumas líchias enquanto passava pela janela de Ch'ing-su. Ele parou e disse educadamente: "Mestre, estas frutas são de Kiangsi, minha cidade natal. Pegue algumas". Ch'ing-su alegremente aceitou, dizendo: "Eu nunca mais comi líchias desde que meu mestre morreu" Ts'ung-yüeh perguntou: "Quem foi seu mestre?" "O Mestre Tzu-ming. Eu fui seu subordinado por treze anos". Ts'ung-yüeh ficou surpreso em ouvir isto e exclamou: "Após ter sido seu assessor por treze anos, o senhor deve ter herdado seus conhecimentos". Ele então ofereceu todas suas líchias ao Mestre Ch'ing-su. Ch'ing-su disse com gratidão: "Como não acumulei mérito suficiente, meu mestre instruiu-me a não transmitir o que eu tinha aprendido com ele. Agora vejo que você é muito sincero e pela amizade que fizemos por causa dessas líchias, farei uma exceção. Conte-me o que você realizou". Ts'ung-yüeh contou então a Ch'ing-su quem o instruiu: "Tanto o Buda como o demônio existem neste mundo. No momento da liberação devemos entrar no caminho de Buda e não no caminho do demônio". Após confirmar a realização de Ts'ung-yüeh, o Mestre Ch'ing-su avisou-o: "Hoje eu confirmei sua realização para que você possa alcançar a verdadeira liberação. Contudo, você não deveria contar às pessoas que você herdou meus ensinamentos. O Mestre Chen-ching Ke-wen é seu professor".
A Vaca de Ferro Saltou sobre Hsin-lo Após ler The Record of Tung-shan, o assistente do Mestre Ch'an Fa-ch'ing estava profundamente emocionado e disse: "É realmente estranho como os antigos consideravam o nascimento e a morte". O Mestre Fa-ch'ing respondeu: "Quando eu morrer, lembre-se de chamar meu nome. Se eu voltar à vida, isto significa que fui liberado do nascimento e da morte. Não há nada de estranho nisto". O Mestre então escreveu um verso:
No quinto dia do quinto mês do calendário lunar, o Mestre Fa-ch'ing deu todas as suas roupas e pertences para que seu assistente distribuísse entre os outros monges. À meia noite, o Mestre sentou-se com as pernas cruzadas; o batimento de seu coração e sua respiração pararam. Lembrando as instruções do Mestre, o assistente gritou: "Mestre! Mestre!" Finalmente, o Mestre Fa-ch'ing abriu os olhos e perguntou: "O que?" "Mestre, por que o senhor não vestiu suas roupas antes de partir?" Fa-ch'ing disse: "Quando vim pela primeira vez, eu não trouxe nada!" O assistente teimou em ajudar o Mestre a colocar suas roupas. "Não se pode deixar nem um pedacinho para a posteridade." O assistente perguntou: "O que o senhor pretende fazer a este respeito?" Fa-ch'ing disse: "Não se preocupe" e cantou:
Em seguida, ele morreu.
12. Hsin-lo foi um dos três reinos da antiga Coréia. O General se Arrepende Um dia, o Mestre Ch'an Meng-ch'uang decidiu tomar uma barca para atravessar o rio. Depois que ela deixou a margem, um general levando uma espada e um chicote, chegou de repente gritando: "Espere-me, também vou!" Quase todos na barca concordaram que ela não deveria voltar, assim o barqueiro gritou: "Espere pela próxima barca!" Então, o Mestre Meng-ch'uang disse para o barqueiro: "Ainda estamos muito próximo da praia. Volte e o apanhe". Vendo que era um monge que falava, o barqueiro voltou e apanhou o general. Quando o general subiu no barco, ele ficou perto do Mestre Meng-ch'uang e deu-lhe uma chicotada, gritando: "Levante-se, dê-me seu lugar". Logo, o sangue começou pingar da cabeça do Mestre. Ele levantou–se sem dizer uma palavra. Todos estavam com medo e não ousaram falar. Embora soubesse que estava errado, o general era muito arrogante para se desculpar. Quando a barca chegou do outro lado, o Mestre Meng-ch'uang desceu e foi para a beira do rio lavar o sangue de seu rosto. O general sentiu grande remorso pelo que havia feito. Ele aproximou-se do Mestre Meng-ch'uang, ajoelhou-se diante dele e disse: "Mestre, estou muito arrependido!" O Mestre Meng-ch'uang disse gentilmente: "Não se preocupe. Pessoas viajando longe de casa, algumas vezes se sentem melancólicas".
Tudo está à mão! Um dia, quando viajava, o Mestre Ch'an Fa-yen Wen-i ficou impedido de continuar a viagem por uma tempestade de neve e teve que ficar com o Mestre Ch'an Kuei-ch'en. Passado alguns dias, a tempestade de neve parou, assim Fa-yen decidiu partir e continuar sua jornada. Enquanto o Mestre Kuei-ch'en estava andando até o portão principal, ele apontou para uma grande rocha à margem da estrada e disse: "Você sempre tem dito: 'Os três mundos não são nada mais que a manifestação da mente e os dez mil Dharmas surgem da consciência'. A rocha está dentro ou fora de sua mente?" Com espontaneidade, Fa-yen respondeu: "De acordo com os ensinamentos do Yogachara, não existem Dharmas fora da mente. Com certeza, a rocha deve estar dentro da mente". O Mestre Kuei-ch'en aproveitou a oportunidade e perguntou: "Você não está viajando? Então por que você carrega um pedaço de rocha em sua mente?" Fa-yen não sabia como responder, assim ele decidiu ficar para procurar a resposta a esta pergunta. Ele trabalhou na questão durante dias e deu diferentes respostas ao Mestre Kuei-ch'en. Qualquer ponto de vista que ele usasse para abordar a questão, o Mestre Kuei-chen sempre discordava e declarava: "Budismo não é isto!" Finalmente, Fa-yen suspirou: "Esgotei as palavras e as idéias". O Mestre Kuei-ch'en exclamou: "Se estamos falando sobre budismo, então tudo está à mão!" O Mestre Fa-yen alcançou a realização naquele instante. Mais tarde, ele fundou na China, a Escola Fa-yen de budismo Ch'an.
A Vida ou a Morte, que Aconteça! Antes que o Mestre Ch'an Pao-fu morresse ele disse aos seus discípulos: "Ultimamente eu tenho me sentido fraco. Acho que está quase chegando o tempo para eu partir". Após ouvirem isto, alguns dos seus discípulos disseram: "Mestre, o senhor ainda parece muito saudável". Outros imploraram, "Mestre, nós ainda necessitamos de sua orientação". enquanto alguns insistiram: " Mestre, por favor fique por amor a todos os seres". Um discípulo perguntou: "Mestre, quando chegar o seu momento de partir, o senhor irá ou ficará?" O Mestre Pao-fu perguntou: "O que você acha que seria melhor?" O discípulo respondeu sem hesitar: "Se é a vida ou a morte, que aconteça!" O Mestre começou a rir: "Quando você roubou as palavras que eu ia usar?" Depois disso, Pao-fu morreu.
O Silêncio é Melhor que a Fala Durante a quinta dinastia (907-950 d.C.), o Rei Liu de Hou Han insistiu em convidar o Mestre Ch'an Yün-men e todos os monges do seu templo para passar o retiro de verão no palácio. Palestras eram feitas diariamente. As damas e os ministros da corte estavam muito ansiosos para ouvir os ensinamentos e também por fazer perguntas. Todos estavam alegremente envolvidos nessa troca festiva de budismo exceto o Mestre Yün-men, que meditava tranqüilamente. Ninguém ousava perturbá-lo. Um oficial viu Yün-men e fez-lhe algumas perguntas. Yün-men respondeu-lhe com silêncio. O oficial não se sentiu ofendido, mas respeitou Yün-men ainda mais. Ele escreveu o seguinte poema e afixou-o:
13. Individualmente, monges e monjas restrigem-se à posse de três mantos, de acordo com as regras da Sangha. Quando o budismo foi introduzido em diversos países, certas modificações foram introduzidas nestas regras devido a diferenças climáticas e das condições culturais. O Monge Chefe Por vinte anos esteve vago, no Templo Ling-shu, o posto de monge chefe. Quando perguntavam ao Mestre Ch'an Ling-shu Ju-min sobre o posto, ele respondia: "Nosso monge chefe acabou de nascer". Em outra ocasião, quando alguém perguntava a mesma coisa, Ling-shu respondia: " Nosso monge chefe está cuidando de sua vaca". Ainda mais tarde, quando as pessoas inquiriam sobre o monge chefe, Ling-shu respondia: "Nosso monge chefe está viajando para se cultivar". Ninguém, realmente entendia o que o Mestre queria dizer. Um dia, o Mestre ordenou aos discípulos para tocar o tambor, o sino e instruiu que todos fossem ao portão principal para dar as boas-vindas ao monge chefe. Todos ficaram pasmos. Quando Yün-men chegou, o Mestre Ju-min pediu-lhe para assumir o posto de monge chefe. Deste momento em diante as pessoas começam a acreditar que o Mestre Ling-shu tinha o poder de conhecer o passado, bem como o futuro. Pouco tempo depois, o Rei Liu de Hou Han estava para empreender uma campanha militar. Tendo ouvido falar do poder do Mestre Ling-shu para prever o futuro, o Rei Liu foi pedir-lhe conselho. O Mestre Ling-shu já sabia da intenção do Rei e morreu antes que ele chegasse. O Rei Liu ficou furioso e exigiu que lhe dissessem: "O que ocorreu para que o Mestre morresse tão depressa?" O assistente respondeu candidamente: "O Mestre sabia que você estava vindo, assim ele decidiu morrer antes que você chegasse. Ele deixou-lhe uma caixa". O Rei Liu abriu a caixa e achou dentro, um pedaço de papel no qual estava escrito: "Os olhos dos humanos e dos seres celestiais estão contidos na cabeça do monge chefe no salão de estudos". O Rei Liu entendeu as implicações subjacentes da mensagem. Ele cancelou os planos de guerra e convidou o Mestre Yün-men para tornar-se o Abade do Templo Ling-shu.
Implorando para Ajudar Outros Um dia, enquanto o Mestre Ch'an Chao-yin estava viajando, alguém aproximou-se dele e perguntou: "O que eu deveria fazer com meu mau temperamento?" O Mestre respondeu: "O mau temperamento surge da raiva. Humildemente imploro-lhe que você me dê seu mau temperamento e sua raiva". Em uma outra ocasião, o Mestre Chao-yin descobriu que o filho de um de seus devotos era muito preguiçoso e gostava de dormir. Seus pais não sabiam como o ajudar. Ao saber disto, o Mestre Chao-yin foi à casa do devoto, acordou o filho, e disse-lhe: "Eu vim pedir-lhe sua preguiça. Dê-me sua preguiça". Outra vez ainda, quando o Mestre Chao-yin ouviu que um casal, que era seu devoto, estava brigando, o mestre foi pedir-lhe a sua desavença. Do mesmo modo, quando um devoto estava se excedendo no álcool, o Mestre Chao-yin foi pedir-lhe seu alcoolismo.
Um Par de Mãos Puras O Primeiro Ministro P'ei-hsiu da dinastia T'ang era um praticante Ch'an. Ele registrou suas introspecções advindas da prática da meditação e presenteou-as ao Mestre Ch'an Huang-po. O Mestre colocou as anotações sobre a mesa sem olhá-las. Depois de um longo tempo, ele perguntou a P'ei-hsiu: "Você entendeu o que eu fiz?" P'ei-hsiu respondeu francamente: "Não, eu não entendi". O Mestre Huang-po disse: "O ensino do Ch'an não depende só de palavras e escritos. Escrevendo, você realmente destruiu o verdadeiro significado do budismo que é a chave do ensino do Ch'an. Portanto, eu me recuso a vê-las". As palavras dele deram a P'ei-hsiu uma profunda compreensão do Ch'an, e seu respeito pelo Mestre cresceu. Ele compôs um verso em louvor ao Mestre:
14. A mente selada refere-se a uma impressão mental ou certeza intuitiva; a mente é a Mente Búdica possuída por todos, que pode lacrar ou assegurar a Verdade. Assim, o termo indica o método intuitivo da Escola Ch'an, evitando a palavra falada ou escrita. Quando os Mestres Ch'an conferem a mente selada sobre um estudante, eles estão com efeito, validando a experiência de iluminação do discípulo. Como Você Pode Entender?
Quando estava em Kiangchou, o Mestre Yün-men encontrou um oficial chamado Chen-ts'ao, que também praticava Ch'an. Chen-ts'ao perguntou a Yün-men: "Qual é o dever de um monge itinerante?" Yün-men replicou indiretamente, perguntando: "A quantas pessoas você tem feito esta mesma pergunta antes de perguntar-me?" O oficial disse: "Não importa a quantas pessoas eu tenha perguntado. Neste momento eu estou lhe perguntando". Yün-men inqueriu: "Discutiremos isto mais tarde. Deixe-me primeiro perguntar-lhe, quais são os ensinamentos do Tathagata?" O oficial respondeu: " Os rolos amarelados de pergaminho". Yün-men retrucou: "Eles somente são tinta no papel e não a essência do ensinamento do Buda. Tente novamente. Qual é o ensinamento?" O oficial replicou: "Está na ponta da minha língua, mas no momento me faltam as palavras. Minha mente deseja racionalizar, mas meu pensamento se foi". Yün-men disse: "Querendo dizer, mas não achando palavras apropriadas, implica no uso da linguagem. A mente que deseja raciocinar, mas que não encontra pensamento, implica em pensamento ilusório. Você ainda não disse o que é certo. Tente novamente. Qual é o ensinamento?" O oficial não podia chegar a uma resposta. Yün-men questionou: "Eu ouvi dizer que você está estudando o Sutra Lótus?" O oficial afirmou dizendo: "Sim". Yüan-men continuou: "De acordo com o Sutra Lótus, 'Toda subsistência e posse está de acordo com os fenômenos reais.' Por favor diga-me quantas pessoas foram ao céu onde não existe pensamento e não-pensamento?" O oficial estava novamente sem palavras. Yün-men observou: "Mesmo lendo os dez sutras e os cinco shastras e ainda fazendo práticas em monastérios por dez ou vinte anos, isto não garante que alcancemos iluminação. O que faz você pensar que você pode entender os ensinamentos do Buda lendo apenas uns poucos sutras?" O oficial disse: "Por favor, perdoe-me". Depois deste encontro, o Mestre Yün-men foi convidado para ficar na residência do oficial por três anos.
A Maravilha do Picar e do Bicar O Mestre Ch'an Nan-yüan Hui-yung era discípulo do Mestre Ch'an Lin-chi. Certa vez, Hui-yung ao ensinar seus estudantes disse: "Hoje em dia a maior parte das pessoas apenas conhece teoricamente a relação entre o picar e o bicar15, mas elas não experimentaram ainda a maravilha dessa prática". Então um noviço adiantou-se e perguntou: "O que é a relação simultânea entre o picar e o bicar?" O Mestre Hui-yung explicou: "Picar e bicar é como friccionar duas pedras para obter uma faísca. Ela acontece, instantaneamente, sem qualquer deliberação, hesitação ou demora". O noviço insatisfeito disse: "Ainda tenho minhas dúvidas". O Mestre Hui-yung amavelmente perguntou: "Que dúvidas você tem?" O noviço disse sarcasticamente: "Antes eu não tinha nenhuma dúvida, mas o que você acabou de dizer, me confundiu". O Mestre Hui-Yung bateu no noviço com seu cajado e expulsou-o do templo antes que ele tivesse chance de se explicar. Este noviço foi estudar com o Mestre Yün-men e contou a um de seus discípulos como ele tinha sido expulso pelo Mestre Hui-yung. O discípulo inquiriu: "Quando o Mestre Hui-Yung lhe bateu, o cajado quebrou?" Depois de ouvir isto, o noviço alcançou a realização e decidiu voltar ao Mestre Hui-yung e pedir-lhe perdão. Infelizmente, o Mestre Hui-yung já havia morrido, e o Mestre Feng-hsüeh Yen-chao era o Abade. O Mestre Yen-chao perguntou ao noviço: "O que fez você discordar do Mestre?" O noviço replicou: "Eu me senti como se estivesse andando como uma luz tremulante. O Mestre Yen-chao disse: "Bem, agora que você entendeu, eu confirmarei sua realização".
15. "Picar e bicar" descreve o processo pedagógico que transpira entre os praticantes Ch'an e seus mestres. Os termos são derivados da experiência de um pintinho quebrando a casca. Picar é o som feito pelo pintinho dentro da casca, indicando que ele está pronto para rachá-la. Em resposta a esta ação, a mamãe galinha bica a casca do lado de fora. Desta maneira, o ovo é rachado através do mútuo esforço do pintinho e da galinha, assim como a realização resulta do mútuo esforço do estudante e do mestre. Picar refere-se às questões colocadas pelo praticante Ch'an como um pedido por instruções ao mestre, enquanto bicar denota o ensinamento do mestre Ch'an em resposta ao que foi perguntado, facilitando a realização do estudante.
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