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Ensinamentos Fundamentais do Budismo Ch'an |
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Caros Mestres a Amigos no Darma, Hoje, vamos falar sobre um tema de fundamental importância, mas de difícil elucidação — o renascimento. Quando falamos de renascimento, as pessoas acham a idéia engraçada. Consideram essa crença obsoleta diante do avanço tecnológico do século XXI. Há quem pense que a questão do renascimento diz respeito exclusivamente aos domínios da religião. Afinal de contas, o que acontece depois da morte é algo aparentemente muito distante do nosso dia-a-dia. A frase: "Se não sei nada a respeito da vida, que dirá da morte?", reflete o sentimento de alguns. Para esses a questão do renascimento não é uma preocupação imediata. De fato, no ambiente desta grande sala de conferências, o tema "renascimento" pode não parecer o mais apropriado. Num campo de batalha, no entanto, frente a frente com a morte, nos pareceria oportuno abordar e estudar essa questão extremamente séria e importante. É comum ouvir os jovens dizer, com ar de desdém, que não acreditam em renascimento. Ao não reconhecer a existência do renascimento, eles simplesmente limitam sua compreensão da vida. Se não existisse renascimento, não haveria vidas passadas e, mais que isso, não haveria vidas futuras. Sem vidas futuras, a existência seria breve e sem sentido; a perspectiva de vida seria triste e incerta! Ao passar por uma fase difícil, geralmente tentamos nos encorajar dizendo para nós mesmos: "Tudo vai dar certo. Você vai ver como estarei daqui a dez anos". Mesmo os "daqui a vinte anos, estarei de volta". Com o renascimento, a existência humana tem, digamos assim, mais espaço para manobras. Com o renascimento, sonhos que não se realizaram podem vir a se concretizar. Com o renascimento sempre haverá o próximo trem da vida no qual poderemos embarcar. Nenhum fenômeno deste mundo escapa das voltas da roda do renascimento. É por causa dessas voltas que renasceremos num dos seis reinos de existência; alguns abençoados, outros cheios de sofrimento. Os processos vitais de nascer e morrer são exemplos de renascimento. As mudanças na natureza também são manifestações de renascimentos. Há a mudança das estações. Há o ciclo do tempo — passado, presente e futuro. Há o ciclo do dia e da noite. Há modos temporários de renascimento. A mudança de direção e a transição de um lugar para outro são tipos espaciais de renascimento. Em resumo, tudo à nossa volta é resultado do renascimento. O vento sopra e provoca o acúmulo de nuvens; as nuvens se transformam em chuva, que cai sobre o solo. A chuva evapora e o vapor sobe em direção ao céu, formando nuvens novamente. Esse processo contínuo do ciclo da água é uma forma de renascimento. Quando um automóvel queima gasolina, ele gera energia e produz dióxido de carbono. O dióxido de carbono é absorvido pelas plantas. Quando as plantas morrem, elas se decompõem e formam, muitos anos depois, depósitos naturais de petróleo. Essa é outra forma de renascimento. Uma luz pode ser acesa, apagada e acesa novamente. Isso é renascimento também. A roda do renascimento pode ser encontrada não apenas nas transformações do universo: ela também é evidente nas muitas experiências pelas quais uma pessoa passa ao longo da vida, desde o momento em que nasce, até que more. De acordo com uma pesquisa científica, não existe uma única célula do nosso corpo que não tenha se transformado num período de sete anos. Em outras palavras, nosso corpo se renova totalmente a cada sete anos. A estrutura celular, a percepção e a cognição de todas as criaturas vivas, desde organismos simples até os avançados seres humanos, estão constantemente se movendo, se transformando, vivendo e morrendo. Esse constante estado de fluxo, renovação e mudança metabólica por que passamos fisicamente (nascimento, envelhecimento, doença e morte) e mentalmente (formação, existência, mudança e cessação dos pensamentos) é o que chamamos de roda do renascimento. Isso pode ser comparado ao movimento cíclico das rodas de um carro. A roda do renascimento também age nos relacionamentos familiares; em determinada época, somos filhos dos nossos pais e, em outra, passamos a ser pais dos nossos filhos. As alterações na nossa vida financeira e os nossos altos e baixos emocionais são também exemplos de renascimento. De todos os exemplos de renascimento mencionados, aquele que devemos entender integralmente no budismo é o da roda do renascimento dentro dos seis reinos de existência. De acordo com os ensinamentos budistas, nós, seres humanos, passamos constantemente por ciclos de renascimento. Quando nos referimos a mudanças lentas e graduais, usamos os termos "formação e cessação" ou "mudança e transformação", e reservamos o termo "ciclo de renascimento" para aquelas mudanças que são mais rápidas e repentinas. Esses ciclos são conseqüências diretas do carma. O carma é a força criada como resultado de nossas ações e pensamentos. A força do carma é o que perpetua o ciclo de causa e efeito, fazendo surgir o fluxo da vida, sem fim nem começo, em que se manifestam diferentes variações de formas de vida, como os seres celestiais, os seres humanos, os espíritos e os animais. No budismo, isso é chamado de "roda do renascimento dentro dos seis reinos de existência". O Mestre Sheng An, em sua obra Inspiration to Pledge the Bodhichitta, diz: "Eu e todos os demais seres estamos presos ao ciclo do renascimento do tempo eterno e não podemos nos libertar. Céu e terra, aqui e ali, vivemos sob muitas formas, surgindo e perecendo". Ainda assim, essa profunda e importante lei do renascimento não é aceita por muitos que a ignoram. Não é de surpreender que Mestres Antigos se lamentassem: "Só os sutras podem revelar essa verdade; só o Buda pode falar de tais assuntos". O renascimento não é uma teoria religiosa; não é uma fuga ou um conforto psicológico quando o momento implacável da morte desce sobre nós. É uma ciência precisa que explica nossa existência desde o passado até o futuro. Devemos desenvolver uma compreensão clara do renascimento, não porque seja isso o que se espera de nós no budismo, mas porque esse entendimento pode nos ajudar a examinar nossa vida de forma inteligente. Em seguida, tratarei da perspectiva budista sobre o ciclo do renascimento, em quatro itens. A Importância de se Compreender o Renascimento Que
importância tem o renascimento para a nossa vida? Que sentido ele acrescenta à
nossa vida? Com o renascimento, nossa existência tem continuidade; a vida deixa
de se limitar a um breve período de tempo de aproximadamente cem anos. Com o
renascimento, a vida passa a ter esperança e possibilidades ilimitadas. Com o
ciclo do renascimento, a morte passa a ser o início de outra existência. Viver
e morrer, morrer e viver, a existência continua ininterrupta, com
possibilidades ilimitadas. Pode se comparar esse ciclo a uma tocha. Quando a
base de madeira é totalmente queimada, ela é substituída por outra. Cada base
pode ter componentes diferentes; a chama, no entanto, continua a queimar. O
renascimento é, também, como uma lamparina. Quando uma lamparina se extingue,
acende-se outra. Essas lamparinas, queimando sucessivamente, servem para anular
a escuridão do mundo. À medida que passamos pelo ciclo de renascimento dentro
dos seis reinos, nosso corpo pode assumir muitas formas; podemos ser João ou
José, um ser celestial ou um ser humano preso à terra. Embora as formas variem,
a chama da vida nunca se extingue e a lamparina da sabedoria nunca para de
queimar. O renascimento é o que dá à nossa existência universalidade; existimos
desde tempos imemoriais até os dias de hoje e nossa existência é infinita. O
renascimento dá sentido à nossa existência. Algumas Questões Relativas ao Tema do Renascimento Embora o renascimento seja um tema de profundo significado e importância, há quem tenha muitas dúvidas em relação à sua existência, sua manifestação e seu propósito. Vejamos algumas das perguntas mais freqüentes com relação a esse tema.
A. O
fato de existir um ciclo de renascimento é positivo ou negativo para nós? B. Por
que não temos consciência do renascimento? O budismo ensina que as pessoas perdem totalmente a memória de sua vida passada por causa da "confusão do renascimento". Depois que a pessoa morre, ela passa pelo estágio do "ser intermediário". O ser intermediário possui todos os seis sentidos e se parece com uma criança de um metro de altura. Ela tem poderes sobrenaturais, pode atravessar paredes e é capaz de cruzar o espaço numa velocidade incrível. Nada fica em seu caminho, a não ser o útero de uma mãe e o trono de diamante do Buda. Os seres intermediários vivem e morrem depois de se desenvolver ao longo de sete dias. Depois que more, ele pode voltar a nascer. Pode viver por dois ou três períodos de sete dias ou um total de quarenta e nove dias. Alguns só podem viver por dois ou três períodos de sete dias. No final desse estágio, ele renasce em um dos seis reinos. É por causa desse estágio intermediário que nos esquecemos de nossas vidas passadas, sem sequer nos lembrarmos em que reinos vivemos anteriormente. Alguns de vocês podem dizer: "Que pena! Não seria maravilhoso se tivéssemos o poder de conhecer nossas vidas passadas e futuras, livres da confusão do renascimento?" Vocês realmente acham que poderes sobrenaturais podem nos fazer felizes? Vocês acham que seria agradável lembrar que fomos uma vaca ou um porco numa vida passada? Será que conseguiríamos viver despreocupados se conhecêssemos o futuro e só nos restasse mais três anos de vida? Se pudéssemos ler a mente das outras pessoas e soubéssemos que o sorriso delas está cheio de más intenções, não ficaríamos ressentidos e com raiva? Sem esse poder sobrenatural, todo dia é um grande dia e qualquer lugar é bom de se estar. Como a vida é livre e prazerosa! Assim, existem leis da natureza que regem o universo e a vida. Quando tudo está no seu devido lugar, evoluindo no devido tempo, então tudo pode ficar de fato mais fácil. Podemos ter esquecido nossas vidas passadas, mas, pelas mesmas razões, temos um novo corpo com todas as experiências desagradáveis do passado esquecidas. Isso também não é maravilhoso? C. As orações em memória dos mortos influenciam de alguma forma o renascimento deles? Agora que sabemos que o renascimento é real, cabe perguntar se as orações que fazemos e os sutras que recitamos influenciam de alguma maneira o renascimento de nossos entes queridos, quando eles morrem. Essas atitudes os ajudam a se libertar do renascimento? De acordo com o Sutra Kshitigarbha, de dois a três décimos do mérito de se recitar sutras pode ser transferido aos mortos, enquanto o resto do mérito fica com aquele que recitou o sutra. Por conseguinte, é melhor que nós mesmos recitemos o sutra enquanto estamos vivos; seria como juntar economias para os momentos de dificuldade. Dessa forma, não precisamos impor aos outros a necessidade de recitar o sutra para nós, depois do nosso falecimento. Afinal de contas, o mérito que pode ser transferido para os mortos é limitado. Então, como a leitura dos sutras pode beneficiar os mortos? Fazendo uma comparação, seria como estar sob a proteção e auspícios de um parente abastado. É como o passaporte de que a pessoa precisa para empreender uma viagem; o mérito pode ajudar a pessoa a renascer na terra dos Budas. Quando se joga uma pedra no rio, ela vai rapidamente para o fundo. Se a pedra cair num navio, ela consegue chegar na outra margem em segurança. O carma pesado dos nossos erros é como a pedra; podemos usar o mérito compassivo da leitura dos sutras como uma balsa que nos impede de afundar no mar do renascimento. Em um campo de trigo cheio de brotos saudáveis e fortes, umas poucas ervas daninhas não causarão grandes estragos. O mérito da leitura do sutra pode promover o crescimento dos brotos do nosso bom carma e evitar que as sementes enterradas de nossos maus atos germinem. D. O Feng Shui e adivinhações podem influenciar o renascimento? Na cultura chinesa, é comum que as pessoas consultem um adivinho que lhes revele o melhor momento para a realização de casamentos, funerais e ocasiões especiais. Um mestre em feng shui pode lhe dizer que a sua casa não está no alinhamento certo e que isso pode prejudicar seus descendentes. O adivinho pode lhe dizer que os mapas astrológicos de um casal estão em conflito e que, portanto, essas duas pessoas não deveriam se casar. Quando temos de consultar os astros para saber qual o dia ideal para nos casarmos, ou consultar um adivinho para saber em que hora e lugar devemos enterrar nossos entes queridos, isso significa que nossa vida é controlada pela superstição e pela crença no poder divino. Na realidade, dos muitos casamentos que se realizam em dias auspiciosos, alguns podem terminar em divórcio, enquanto outros podem dar certo. Portanto, realizar ou não uma cerimônia de casamento numa determinada data não é importante para a felicidade do casal. Em vez disso, aprender a viver bem e a manter o compromisso que eles têm um com o outro é o alicerce para uma união feliz. Na verdade, o fundamento do chamado feng shui e da adivinhação dos dias mais favoráveis deveria ser o cultivo dos relacionamentos e das atitudes mentais. Se quisermos um feng shui favorável e uma data favorável, precisamos nos dedicar à tarefa de ajudar os outros e de cultivar bons relacionamentos causais com eles. Agindo assim, descobriremos que todo lugar é o lugar perfeito e todo dia é um dia auspicioso. Portanto, se acreditamos em renascimento, faz sentido que cultivemos diligentemente nossas virtudes e acumulemos méritos, pois nossas virtudes e méritos podem renascer conosco. Também temos de forjar bons relacionamentos causais com os outros, pois os bons relacionamentos podem renascer conosco. De fato, os méritos e bons relacionamentos causais acumulados são a fonte suprema da felicidade da vida. E. Existem exemplos que possam ilustrar o significado do renascimento? Como não há nenhuma maneira de alguém conhecer o passado ou o futuro, existem exemplos na vida real que possam comprovar a existência do renascimento? Pegue o exemplo da seda que usamos para confeccionar nossas roupas. Ela é feita pelo bicho-da-seda. Os bichos-da-seda tecem o casulo de onde sai a mariposa. Ainda que sejam três entidades diferentes, bichos-da-seda, casulos e mariposas, são o mesmo ser. Não seria correto dizer que o bicho-da-seda não é mariposa; por outro lado, tampouco seria correto dizer que o bicho-da-seda e a mariposa são a mesma coisa. Assim, não podemos dizer nem que o bicho-da-seda é a mariposa nem que o bicho-da-seda não é mariposa. Esse não é um exemplo vivo de renascimento? Certa vez,
um homem roubou dois cocos. No momento em que se deliciava com os cocos, foi
pego em flagrante pelo dono das frutas. O dono ralhou com ele, proferindo
gritos: Com ar de
indignação, o homem argumentou: Os cocos do coqueiro vêm da semente do coqueiro no chão; eles estão ligados pelo renascimento. Assim como o processo de crescimento do coqueiro (a partir da semente), ou o ato de acender uma tocha com outra, a vida avança indefinidamente. A roda gira, gira, sem descanso. F. A idéia de renascimento está em conflito com o conceito de ausência de individualidade? Um dos ensinamentos fundamentais do budismo é o de que "nenhum darma tem um eu substancial". Se isso é verdade, então como pode haver renascimento? Esses conceitos se contradizem? A ausência de individualidade não significa que não exista vida. Significa que nossos corpos físicos são a combinação ilusória dos cinco agregados (forma, sensação, percepção, atividade mental e consciência) e dos quatro grandes elementos (terra, água, fogo e vento). Essa combinação existe na medida em que as causas e condições certas estão presentes. Assim, nosso corpo físico não tem um eu substancial e é isso o que se quer dizer com ausência de individualidade. A idéia de renascimento não está em conflito com o conceito de ausência de individualidade. Usemos como o exemplo uma barra de ouro. Ela pode ser moldada na forma de anéis, de brincos ou de braceletes. As formas podem variar, embora a natureza do ouro não mude. O mesmo acontece com a nossa existência. Num fluxo infindável através da roda do renascimento, nós vagamos entre o reino celestial e o reino terreno. Podemos ser João ou José, um asno ou um cavalo. O que na verdade passa pela roda do renascimento não é o corpo físico, mas uma "força propulsora" que existe dentro de cada um de nós. G. O que está no núcleo do renascimento? Se não é o corpo físico que renasce, então o que é essa "força propulsora" que está no núcleo do renascimento? No budismo, o âmago do renascimento é descrito como alaya-vijnana (o armazém da consciência). Nos sutras, alaya-vijnana é descrito da seguinte forma:
Alaya-vijnana é a fonte primordial da vida. Ao entrar em contato com diferentes condições e circunstâncias, ele dá origem a vários atos e atividades mentais, por conseguinte, ao carma. As sementes do carma (por sua vez) são guardadas no grande armazém do alaya-vijnana. A quantidade de carma positivo e negativo nesse armazém gigante determina os rumos do renascimento seguinte. Quando um ser morre, o alaya-vijnana é o último a deixar o corpo físico. Quando um ser volta a nascer, o alaya-vijnana é o primeiro a chegar no novo corpo físico. Ele é o núcleo do renascimento. H. Qual a relação entre renascimento e a força do carma positivo e negativo que acumulamos? Se o alaya-vijnana é o núcleo do renascimento, o que determina então as circunstâncias dos nossos renascimentos? Todos os dias criamos um carma infinito através de ações, palavras e pensamentos. Uma parte desse carma é benéfica, ou seja, causa felicidade; outra parte é maléfica, pois causa sofrimento. Essas duas partes dão origem a duas forças dominantes que competem entre si, assim como num cabo de guerra. Se a força do carma benéfico for maior, nasceremos em um dos três reinos superiores: o celestial, o humano ou a existência ashura. Se a força do carma maléfico predominar, renasceremos em um dos três reinos de sofrimento: o animal, o dos espíritos faminto sou o inferno. Assim, é a natureza benéfica ou maléfica do carma que determina nossos renascimentos futuros. Daí podemos concluir que, se quisermos desfrutar bem-estar no futuro, é fundamental que façamos o bem e evitemos o mal. I. Qual é o objetivo final do renascimento de acordo com as diferentes religiões? Quase todas as religiões aceitam a idéia de renascimento. O que elas dizem acerca do objetivo final do renascimento? Os taoístas buscam a vida eterna e a juventude permanente. Os cristãos acreditam que o objetivo final é ir para o céu, estar com Deus e conquistar salvação eterna. Até as religiões mais folclóricas advogam a vida eterna. Isso não está de acordo com os ensinamentos budistas, segundo os quais o objetivo final do renascimento é dar um fim ao ciclo de nascimento e morte. Isso significa que temos de nos empenhar para nos liberar da roda do renascimento. Da perspectiva Budista uma vida longa, uma vida eterna ou uma vida imperecível não está livre da agonia do renascimento. Só o fim do ciclo de nascimento e morte pode nos emancipar do sofrimento da existência. Essa é a delícia essencialmente serena e eterna do puro viver! Evidências do Renascimento Há muitos
registros bem documentados, feitos por estudiosos famosos ao longo da história,
que não deixam dúvidas acerca da inegável existência do renascimento. Depois de Yang-Ming Wang insistir várias vezes, o monge percebeu que aquele visitante não sairia dali enquanto não pudesse ver o que havia no interior da sala, e deixou-o finalmente entrar. Sob a luz difusa do anoitecer, Yang-Ming Wang viu um velho monge, há muito falecido, sentado numa esteira, com a coluna para sempre ereta. Ao olhar mais de perto, Yang-Ming Wang quase caiu para trás. Como o rosto do mestre podia ser tão parecido com o dele próprio? Ao abaixar a cabeça, ele viu na parede um poema que dizia:
Como se descobriu então, o velho monge era ninguém mais do que Yang-Ming Wang em sua vida anterior. Assim como fechara a porta no passado, ele voltara para abri-la naquele mesmo dia. Como um testemunho às gerações futuras, Yang-Ming Wang escreveu o seguinte poema:
Entre os
registros públicos do condado de Hsiushui, na província de Kiangsi, está o
relato do caso de uma mulher que renasceu como um famoso erudito chamado
Shan-Ku Huang. Ele se tornou delegado do condado com apenas 26 anos. Um dia,
ele sonhou que havia caminhado até um lugar. Ali, ele viu uma senhora de
cabelos grisalhos que preparava e fazia oferendas em frente à casa dela. No
altar havia uma tigela com macarrão e aipo. A tigela de macarrão exalava um
aroma tão apetitoso que, sem nenhuma hesitação, ele pegou a tigela do altar e
começou a comer. Quando acordou, ele ainda podia sentir o gosto do aipo em sua
boca. Shan-Ku Huang achou que tudo não passara de um sonho e não ficou pensando
muito a esse respeito. No dia seguinte, enquanto dava um cochilo à tarde,
voltou a ter o mesmo sonho. Aquilo o deixou intrigado e resolveu tentar
descobrir que lugar era aquele que vira no sonho. Depois de caminhar um pouco,
ele se deparou com uma casa diante da qual estava a mesma senhora que vira no
sonho. Com três palitos de incenso na mão, ela rezava silenciosamente. O mais
inacreditável era o fato de que, no altar, havia uma tigela de macarrão
recém-preparado. A refeição exalava um aroma delicioso. Muito curioso, Shan-Ku
Huang se aproximou da mulher e perguntou: Aquelas
palavras o surpreenderam, deixando-o absolutamente chocado. Estranho! Pois ele
tinha justamente 26 anos. Então Shan-Ku Huang dez outra pergunta: Cheio de
indagações, ele pediu à senhora: A senhora
concordou e mandou que ele entrasse. O quarto era cheio de livros e sutras que
ele já lera um dia. Num canto, havia um grande baú. Shag-Ku Huang perguntou
curioso: A velha
senhora respondeu que não sabia o que havia ali dentro nem onde se encontrava a
chave. Shan-Ku Huang se concentrou por um momento. Então, como se nele
despertasse uma lembrança, rapidamente encontrou a chave e abriu o baú. Ficou
pasmo ao perceber que ele estava cheio de artigos e textos de cada um dos
concursos do governo que ele prestara alguns anos antes. Ele finalmente
percebeu que a solitária anciã fora sua mãe na vida anterior. Caindo de
joelhos, ele declarou do fundo do coração: Ele então convidou aquela mulher para acompanhá-lo até a sua casa e escreveu um poema que marcasse essa reviravolta em sua vida.
O que o poema diz é o seguinte: embora fosse leigo, ele aspirava à vida monástica. Embora tivesse uma vida secular, ele não sofria com as tentações mundanas. A vida é como um sonho; além da vida existe outra existência. Ele certamente se identificaria com a frase "Nos sonhos, vívidos são os seis reinos da existência. Depois do Despertar, o vazio é o universo, sem substância". O Quinto Patriarca da escola Ch'an, Hung Jen, também contava uma história muito conhecida acerca de seu renascimento. Hung Jen fora um velho jardineiro em sua vida anterior. Ele tinha grande respeito pelo Quarto Patriarca, Tao Hsin, e queria tornar-se seu discípulo. Tao Hsin achava que o jardineiro era muito velho e não seria capaz de enfrentar o rigor das viagens para disseminar o Darma. Tao Hsin então consolou o jardineiro dizendo: "Se você renascesse agora eu permaneceria por mais alguns anos e esperaria por você". O velho
jardineiro despediu-se do Quarto Patriarca e foi embora, margeando um riacho,
onde viu uma jovem lavando fios de algodão. Vendo que
já escurecia e que o pobre homem precisava de um abrigo onde passar a noite, a
jovem concordou. E uma coisa muito estranha aconteceu. Essa moça solteira ficou
grávida assim que voltou para casa. A família ficou extremamente desgostosa com
o fato e deserdou-a. Meses depois, ela deu à luz um lindo e roliço menininho.
Sem saber o que fazer, ela atirou o desditoso bebê no rio, mas, como que por
milagre, ele voltou, flutuando rio acima, seguindo contra a corrente. Sem meios
de sobrevivência, a moça, então, passou a pedir esmolas para sustentar a ela e
ao bebê. Como ninguém sabia quem era seu pai, o bebê era chamado de "Menino sem
Nome". Seis anos se passaram e o bebê cresceu, tornando-se um garoto adorável e
inteligente. Um dia, quando o Mestre Tao Hsin fazia suas pregações na região, o
garoto se aproximou dele, puxou com força sua túnica e não a largou até que
conseguiu chamar a atenção do Mestre. Muito sério, o menino então pediu que o
tomasse como seu discípulo. Quando o Mestre viu que ele não passava de um
garotinho, deu-lhe uns tapinhas na cabeça e disse gentilmente: Falando
como um adulto, o "Menino sem Nome" respondeu: Essas
palavras despertaram a lembrança do Mestre Tao Hsin, que não tardou em
perguntar: Tao Hsin ficou encantado ao ouvir a resposta expressiva do menino e achou que ele, um dia demonstraria sua grandiosidade e contribuiria muito para a divulgação do Darma. No devido tempo, o Quarto Patriarca acabou passando sua túnica e sua tigela para o "Menino sem Nome", que se tornou então o Quinto Patriarca da escola Ch'an. O Quinto Patriarca teve muitos discípulos e a escola Ch'an realmente floresceu graças a ele. Em 1942,
no condado de Pin, na província chinesa de Shensi, vivia um homem chamado
San-Niu T'ien. Esse homem morava numa caverna. Durante uma tempestade, a
caverna desmoronou e ele foi soterrado. Asfixiado, sentiu que escalava um monte
de entulho. Fora da caverna, viu sua família reunida, chorando. Ele perguntou
aos parentes o que se passara, mas ninguém parecia prestar atenção nele.
Aborrecido e irritado, se afastou da família "caminhando" para longe. Depois de
muito andar, chegou às margens do lago Mingyu. Ali, viu uma porta estreita e
decidiu esgueirar-se pela exígua passagem. De repente, ouviu uma voz se elevar
em meio a uma gritaria: Sem saber,
San-Niu T'ien tinha renascido como o filho da família Chang, que lhe deu o nome
de Sheng-Yu Chang. Assim que saiu do útero da mãe, ele viu que a parteira
procurava por todo canto a tesoura. Perguntou então a ela: Chocados, todos os presentes emudeceram de espanto. Achando que se tratava de uma espécie de demônio, sugeriram que o recém-nascido fosse atirado ao rio. A mãe ficou com pena do bebê e ele foi poupado. Por sete anos, ele não ousou dizer uma palavra sequer, embora se lembrasse de tudo o que acontecera em sua vida anterior. De alguma forma, a notícia do renascimento de San-Niu T´ien como filho da família Chang chegou aos ouvidos da família T'ien. Certa feita, a família T'ien tratava uma disputa de terras com um vizinho e não conseguia encontrar a escritura de sua propriedade. Em desespero, pediram ao filho dos Chang para que viesse à casa deles e procurasse pelo documento. Espantosamente, o menino mostrou grande familiaridade com os assuntos da família. Localizou a escritura sem demora e assim resolveu a contenda. Essa história foi contada pelo diretor-assistente da Previdência Social de Taiwan, o Sr. Nai-Huang Mou, e foi verificada pelo Ministro Interino das Finanças, o Sr. Fu-Chou Wang. Mesmo nesta era moderna e científica, ainda existem muitos casos verídicos inexplicáveis de renascimento. Tung-Po Su, o famoso poeta chinês, sempre teve um relacionamento próximo e profundo com o budismo. Ele era muito amigo de alguns monges e os visitava com freqüência. Na obra Record of Lamp Passing for Laity, há registros de que, em sua vida anterior, ele fora o Mestre Preceptor do Quinto Patriarca da escola Ch'an. Quando sua mãe o esperava, ela sonhou com um velho monge franzino e de olhos pequenos. Mais tarde, ela deu à luz Tung-Po Su. Muitos anos depois, por intermédio do irmão Ch'e Su, que era oficial do governo em Kaoan, Tung-Po Su.tornou-se amigo de três monges, Chen ching, Wen Sheng e Shou Ts'ung, com os quais costumava conversar sobre o Ch'an e o Darma. Numa certa ocasião, todos os três monges sonharam com a visita do falecido Mestre Preceptor do Quinto Patriarca. Quando conversavam sobre o sonho, aconteceu de Tung-Po Su visitá-los. Eles contaram a Tung-Po Su sobre o sonho e este, então, comentou que, com cerca de sete anos de idade, também sonhara que era um monge peregrino que difundia os ensinamentos budistas na região de Shanyu. O Mestre
Chen Ching imediatamente acrescentou: Os monges vieram então a saber que Tung-Po Su tinha 49 anos. Compreenderam então que Tung-Po Su fora o Mestre Preceptor em sua vida anterior. Segundo um
famoso provérbio chinês, "os relacionamentos estão destinados a durar três
vidas", sendo essa a profundidade e a extensão deles. Na verdade, por trás
desse provérbio, existe uma comovente história de renascimento. Tung-Po Su, em
seu livro intitulado The Legend of Monk Yuan Tse, descreveu a amizade entre o
Mestre Yuan Tse e o estudioso Yuan Li. Ambos planejaram viajar juntos para a
montanha Omei, mas não chegaram a um acordo quanto ao melhor roteiro para se
chegar lá. Yuan Tse queria viajar por terra, mas Yuan Li insistia em ir de
barco pelo rio. Com um suspiro, o Mestre Yuan Tse acabou concordando: Eles
finalmente decidiram tomar a rota fluvial. Quando passavam por Nanp'u, viram
uma mulher grávida nas margens do rio. Yuan Tse deu um longo suspiro e disse: Naquela mesma noite, o Mestre faleceu sem sentir nenhuma dor. Três dias depois, Yuan Li fez uma visita à senhora. O recém-nascido de fato deu a Yuan Li um cálido e inocente sorriso assim que o viu. Treze anos mais tarde, ele viajou para o Templo T'ienchu. Ali, viu um jovem pastor montado num boi, cantando uma canção:
Quando
Yuan Li ouviu a canção, ele chamou em voz alta: O jovem
pastor acenou de volta e respondeu: Então, ele continuou a tocar sua flauta e se foi, montado no lombo do boi,devagar, até sumir no horizonte. Como se Pode Transcender o Renascimento? Agora que
já compreendemos o significado e a autenticidade do renascimento, devemos dar
um passo adiante e descobrir como transcendê-lo. A compreensão correta do
renascimento é apenas um processo, um meio de chegar ao objetivo final de como
transcendê-lo. Algumas pessoas consideram a doutrina budista do renascimento e
da lei de causa e efeito supersticiosa e ridícula. Na verdade, todos os
ensinamentos do Buda não passam de métodos prodigiosos para nos libertarmos dos
grilhões do renascimento. Uma vez que o propósito último do budismo é
transcender o renascimento, o budismo é, na verdade, a religião sensível e
digna de crédito que pode estilhaçar a roda do renascimento. De fato, se consultarmos os contos Jataka do Buda, descobriremos que o Buda também já havia renascido como uma divindade, um animal, um monge e um membro da realeza. Sem se esquivar dos ciclos de renascimento, o Buda praticou diligentemente o caminho da compaixão e da sabedoria. O Buda está sempre trabalhando para libertar todos os seres sencientes e manifestando o caminho da budeidade. Quando o
fundador da escola Wei Yang, o Mestre Ch'an Wei Ling Yu, estava prestes a
falecer, seus discípulos se reuniram à volta dele e perguntaram: Chocados e
intrigados com a resposta do Mestre, os discípulos perguntaram: Os discípulos lamentaram a morte do Mestre. Depois do funeral, eles de fato acharam um filhote de búfalo numa fazenda ali perto. Também encontraram no animal o nome do Mestre. Quando viram o búfalo, que um dia fora seu mestre, labutando sob o sol abrasador, eles se apressaram em comprar o animal, para que eles pudessem cuidar dele no Templo. Toda manhã eles o alimentavam com capim fresco. Mas, estranhamente, o búfalo se recusava a comer ou beber. Os discípulos não tiveram alternativa senão devolver o búfalo à fazenda. Lá, o animal trabalhava e mastigava alegremente seu feno. O ato de compaixão do Mestre Wei Yang Ling Yu é um ótimo exemplo do ditado, "Quem quiser se tornar um grande sábio do budismo precisa se dispor a servir todos os seres". Esse nível supremo de compaixão estava além da compreensão superficial de seus discípulos. Somente quando se é capaz de praticar os ensinamentos budistas em meio ao mar do renascimento, sentindo-se à vontade dentro dos limites da reencarnação, é que se pode entender verdadeiramente o renascimento. Esse praticante do budismo é um Bodhisattva que de fato se libertou do renascimento.
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